9 – NADA SE PARECE COMO ANTES

Um relógio foi pouco para tanta confusão dentro de onze cabeças. Logo foram as últimas economias, os últimos pertences, os últimos utensílios saqueados. Em meio a isso tudo se juntaram a eles os irmãos Santos, Cardozo, os Castros e mais uma série de pessoas que iam se esbarrando em meio a Avenida. O banquete estava armado, beberam e comeram como se fosse a última coisa que fariam nesse mundo. A alegria imperava, a desgraça era motivo de risada, os problemas haviam-se apagados junto com a energia. Quando a avenida estava prestes a entrar numa penumbra total, acendendo as luzes do céu, não foram elas exatamente que se acenderam. Por um instante imaginavam que era o sistema que lhes viera assombrar com sua luminosidade, mas logo perceberam que era outra coisa que estava por vir.

Um facho de luz fora projetado nas paredes dos edifícios, e puderam observar mais alguns fachos acendidos ao alcance de suas vistas. As pessoas saíam para as ruas fascinadas pela energia exposta ao seu olhar, pela luz dos projetores rasgando a escuridão da cidade. A imagem do presidente vem à tona e os falantes fazem o estridente grito de quando ligados.

“Caros Cidadãos, este é o recurso de emergência do governo. Havia indícios remotos do que ocorreu há anos, mas não queríamos causar alarmes sobre uma possibilidade incerta. Porém, aconteceu, e aqui estão vocês admirando minha imagem. Os pólos magnéticos do mundo foram revertidos, todo o nosso conhecimento de física não existe mais nessa nova relação energética mundial. Tudo aquilo que construímos baseado em conceitos não tem a menor utilidade nesta nova ordem. Voltamos aos primórdios de nossa civilização. Nossas indústrias não podem mais produzir, nosso maquinário não podem mais ser utilizados, nossa virtualidade não pode mais ser acessada. Tudo aquilo que chamávamos de progresso, não tem mais como progredir. A nossa evolução voltou a ser simplesmente humana. Não estou aqui mais como vosso governante, pois o governo era regido através de uma rede interligada a um sistema que não possuí mais a fluidez anterior. Estou aqui como mais um habitante perplexo pelo que ocorreu com a nossa sociedade, mas principalmente para lhes instruir a livrar-nos desses concretos que cimentamos em nosso habitat. Temos que re-observar as novas necessidades impostas pelo planeta, para podermos junto a elas nos misturar e voltar a sermos habitantes dele e não mais seu manipulador. Não adianta nos auto-martirizarmos, em lutarmos uns contra os outros, em tentar nos auto-saquearmos, pois tudo isso só culminaria na extinção da raça humana. Devemos rever todo o nosso conceito criado dentro de um mundo em que a concorrência imperava e reformular todas as nossas questões de relacionamento humano. Se a luta do homem continuar a ser em função da soberania do homem sobre o homem, estaremos destinados a petrificarmos junto com nossas cidades de concreto. Agora, mais do que nunca, devemos deixar florescer nossos sentimentos humanos e esquecermos que um dia a crença material de sucesso regia nossas angustias. Se Deus existe, o nosso antigo modo de enxergar o mundo não era a sua criação.”

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