8 – NADA SE PARECE COMO ANTES

O alaranjado do entardecer reflete nas onze pessoas que percorrem uma Avenida Paulista irreconhecível. O que antes era uma passagem de executivos bem vestidos, que mantinham a sua pose de bem-sucedido, dá lugar a uma porção de pessoas desfiguradas, que mal se mantém de pé pelo tanto de entorpecente ingerido diante da nova ordem. As pessoas que vagavam com um destino certo, agora não sabem mais pra qual finalidade devem caminhar, não entendem como proceder nestas inusitadas situações. Muitas preferiram divagar sobre o acontecimento dentro do bar, gastando as últimas economias que possuíam na intenção de transformar um pesadelo em sonho lúcido. As estações de metro estão fechadas, os pontos de ônibus estão vazios, suas ruas estão num congestionamento sem previsão de fluidez. A antiga Avenida de passagem já não leva ninguém a lugar nenhum.

Os onze caminham sem a perspectiva de chegar a algum lugar, desviando-se dos corpos abatidos e desorientados que buscam uma saída da avenida. “Que fazer agora?” “Juntamo-nos a essa condição?” “Procurar o que, não há nada pra procurar, não há o que produzir. Condicionamo-nos tanto a ser alguém dentro do sistema, que agora não temos mais o sistema como base, não sabemos mais quem somos realmente. O que fazíamos fora disso tudo? Nada. Não éramos nada além de projetos do sistema. Todas as nossas buscas foram por algo virtual, toda a nossa imagem que queríamos espelhar para o mundo, agora já não temos esse espelho para nos admirarmos. O que somos agora a não ser seres que trafegam sem um porquê?” “E desde quando tínhamos um porquê dentro disso tudo?” “Tínhamos metas e objetivos que agora não estão bem claro.” “Nosso objetivo principal é sobreviver.” “Mas qual é o custo de tudo isso, sobreviver apenas por isso? Apenas para manter nosso corpo respirando e se alimentando do oxigênio que não vemos? E o que alimenta a nossa cabeça difusa? Oxigênio e proteínas não amenizam minha autocrítica.” “E se alterarmos a realidade?” “Mas quando os efeitos dessa alterações passarem, a realidade permanecerá por aqui, e nós estaremos com o peso da ressaca para enfrentá-la.” “Ao menos iremos enxergá-la com outros olhos.” “E de que serve tudo isso.” “Apenas pra nos manter aqui. Num mundo onde as distrações não eram bem vistas, o que mais nos interessava era essa fuga momentânea. Agora que o mundo virou uma distração, vamos negar tudo isso? Vou trocar meu relógio por uma dúzia de cervejas.”

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