7 – NADA SE PARECE COMO ANTES

Os cinco sobem o morro atravessando a avenida do saqueio. O que antes se chamava de confusão, agora era visto como uma nova ordem. As lojas já não tentavam barrar os desesperados, estes já nem eram mais vistos como tais. Eram os cidadãos de uma nova cidade num dia extraordinário. Se alguém quisesse alguma coisa, era só atravessar a rua e pegar. Até os antigos gerentes tornaram-se cidadãos, não existiam mais donos ou superiores, todos estavam no mesmo patamar do caos. A cidade caótica não era mais assimilada, o Sol rachava pelas ruas num grande saldão de feriado.

Acima do morro encontram um tumulto ainda maior de todos os outros já encontrados. Desta vez não era pelo dinheiro, nem por utensílios liberados ao dia. Parece uma manifestação do corpo de bombeiros em frente à estação de metro. As pessoas cercam o redor dessa manifestação, e eles seguem o fluxo natural dos curiosos. “Que estará acontecendo por aqui?”. “É algo fora do comum isso tudo”. “O dia inteiro esteve fora do comum”. “As pessoas estão em choque lá dentro”. Ao ouvirem esta última frase, os cinco se deparam com Ricardo a lhes avisar sobre esta nova situação. “Estava indo para o trabalho quando tudo começou. Começaram a chegar viaturas do corpo de bombeiros com seus últimos resquícios de gasolinas. Algumas pararam a algumas esquinas daqui. Foi o primeiro chamado do dia e o único que irão atender hoje. A energia faltou quando o primeiro trem estava fazendo seu primeiro percurso. Não vinha lotado, mas tinha uma quantidade de pessoas relevantes. O maquinista ainda conseguiu passar um radio ao corpo de bombeiros quando a situação aconteceu. As portas não se abrem, não há energia para movimentar o trem até a estação. Ele está parado a poucos metros dela. Os bombeiros estão tirando as pessoas pelos vidros quebrados, elas estão aterrorizadas, não conseguem entender o que aconteceu, como pode a energia de uma cidade inteira acabar? E se ela voltar bem no meio do resgate, quantas pessoas conseguirão se safar?”. “Ela não vai voltar”. As palavras de Araujo foram uma confirmação do que todos imaginavam, mas não tinham coragem de expressá-las. Como poderiam viver sem energia? Suas vidas por inteiro era composta por materiais elétricos. Suas memórias eram virtuais, seus relacionamentos eram virtuais. Como as pessoas iriam se relacionar se não tiver mais o auxílio da internet. Como poderiam se relacionar com estranhos em vossa frente, a causar arrepios. A agenda de afazeres, a conexão com o mundo, a lista de telefones, como poderiam agora, sem nenhum destes equipamentos, manterem a estrutura social que mantinham outrora? E aquele email que deixaram de responder, e aquele outro que enviaram ontem, será que o destinatário o leu a tempo? Quais medidas deverão tomar?

Neste momento, o Sol que estava parcialmente escondido na única nuvem do céu, reflete em suas faces libertando-os de todo questionamento. Percebem que agora estão livres das luzes dos monitores que os aprisionavam e podem simplesmente contemplar o dia de uma sexta feira qualquer, em pleno horário de expediente, mesmo que este já esteja chegando ao fim. Agora, os computadores não mais marcarão o horário que sairão do trabalho, o dia voltará a ser regido pelo ambiente natural. Livres, Ricardo, que estava acompanhado de Boniconte, Matuzzo, Henrique, Trevas, Panamby e os cinco caminham pela não mais agitada Avenida Paulista.

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