6 – NADA SE PARECE COMO ANTES

O sol a pino castiga a travessia pela ponte. João, sentindo-se ligeiramente tonto, encosta-se ao guarde-reio pra descansar. O cheiro de merda que emana do rio, vaga por entre seus pensamentos. “Deve estar no horário de almoço. Que absurdo! Melhor, deve estar no MEU horário de almoço. O horário do acordo social que eu nunca assinei não existe mais, posso ir e vir a hora que bem entender, me alimentar quando me der na gana, ingerir o liquido que desejar. Posso me embebedar das minhas escolhas, sem ter um horário que foi estipulado por ninguém. Eu estipulo meus horários, volto a ser meu próprio chefe…”

“Vamos. Ficar nesse sol não vai melhorar. No final da ponte tem um boteco.” Sente a mão de Cristina puxando-o e volta a caminhar. Enquanto se re-hidratam e se alimentam por conta de uns trocados que José ainda possuía, percebem um alvoroço na avenida. Pessoas correndo desesperadas de um lado, outras voltando com pertences ao outro. Definitivamente algo acontece do outro lado do rio. Saem no meio da multidão e encontram as lojas totalmente escancaradas sendo saqueadas pelo povo. Por um momento hesitam diante de seus antigos valores, não foram feito pra saqueios. Novamente percebem que os valores mudaram e se embrenham na multidão para sacar seus novos pertences.

Quando João se prepara pra resgatar seu laptop de ultima geração, é surpreendido por Araujo. “Que está fazendo aqui dentro?”

“Resgatando o que sempre foi meu”

“Não. Tá errado. Aparelhos eletrônicos não têm mais valor agora. Vamos atrás de vestuário e utensílios que ainda valham alguma coisa.”

João segue Black no meio da multidão. Em meio ao saqueio, Araujo explica que a polícia não pode ser acionada, não tem comunicação, nem locomoção. Devem pegar tudo que conseguir levar e sair dali o mais rápido possível e se encontrar no final da avenida. Reúnem-se novamente, João, José, Cristina e Araujo, todos com novos pertences, que sempre os pertenceram, apesar de não saberem. Enquanto esperam que as sensações corporais voltem a funcionar, encontram Pedro com uma sacola cheia de cerveja gelada. “Essas foram as mais difíceis de conseguir, mas nesse momento é o que mais vale”. No cruzamento da Teodoro com a Cardeal, cinco latas se chocam provando o gosto de um novo pertencer.

One Comment

  1. Reply
    diego May 8, 2009

    Eseee pedro é o caneco?

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