3 – NADA SE PARECE COMO ANTES

Por meia hora, ele espera o dia de amanhã sentado em sua cadeira. A escuridão silenciosa deixa-o pensativo sobre o que fazer de seu dia. Lembra-se de um amigo que vive próximo de seu trabalho e decide ir visitá-lo. Caminha pela avenida que um dia pertenceu exclusivamente aos automóveis. Agora, ao menos uma faixa daquela via, estava repleta de pessoas sem informações. Tudo começou quando meia dúzia percebeu que suas casas só eram confortáveis enquanto possuíam eletricidade. Aos poucos, a casa sem energia foi se saturando, empurrando-os para o enfrentamento do mundo. Cada ser que saía em sua sacada, se deparava com as pessoas ali, do lado de fora, proseando sobre o que deveria ter acontecido. E assim, o espaço privado foi perdendo seu sentido, e o público foi sendo povoado, até que a calçada, que nunca fora feita para o público, se estendeu pra uma das vias automotivas.

Enquanto caminha, percebe que a informação mudara de quesito. Descobriram que Joana, filha de Maria, que mora a duas quadras dali, resolvera passear pelo bairro e se encontrou com Roberto, filho de João, que sempre haviam sido vizinhos e nunca trocaram duas palavras. Agora, os dois caminhavam pelo bairro descobrindo os pontos em comum que perderam com o tempo.

Perceberam que o velho Antônio era um sambista de primeira, compunha suas próprias músicas e nos tempos de criança, vivera no Rio de Janeiro, freqüentando as rodas de samba puxadas por Cartola. Inclusive, em sua melhor fase, compusera uma música em conjunto com o mesmo. Dona Antonieta, sua companheira, fazia uma feijoada todas as quartas e a velha guarda da comunidade vizinha se juntava pra arranhar um cavaco, espantar seus males e encher o bucho.

Enquanto caminhava, descobria mais umas dezenas de informações que sempre estiveram por ali e que nunca foram contadas. Assoviou para chamar seu amigo, pelo trânsito das histórias, nem percebeu que chegara a seu destino.

“E ae, Zé, que ta fazendo dentro de casa ainda?”

“Tava esperando alguém começar a carreata. Não consigo falar com ninguém.”

“Vamo ae, to começando uma agora. Bora?”

“Vamo de carro?”

“Nem adianta. Os postos não estão funcionando e quando não são os carros empacando as vias, são as pessoas pela rua transitando.”

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