2 – NADA SE PARECE COMO ANTES

Recosta-se sob o guarde-reio tentando organizar seus pensamentos. Deveria chegar ao trabalho sob qualquer condição. Ao seu lado, a fila de trabalhadores aumenta procurando saber como proceder. Um ônibus passa lotado, nem se dá o trabalho de parar. Logo passa outro, e mais outro. O quarto para, sentido Zona Sul. Ele se aglomera junto a mais 30 pessoas frente à porta. No empurra-empurra, se enlata junto a elas.

Dentro do ônibus a falta de informação persiste. Em alguns casos, a falta de banho é maior que a da informação. O cheiro azedo invadindo suas narinas e o zum-zum-zum sem nexo o faz movimentar. Dirige-se ao final do enlatado, faltam poucos minutos pra se ver livre daquele martírio.

O alívio em descer deixa-o tranqüilo em relação a não-informação. “Deve ser passageiro”. Pensa tentando se reconfortar. “Quanto deve ter sido o jogo ontem? Será que lançaram mais bombas em Israel? Invadiram a Palestina? Assassinaram o Bush? A Bolsa despencou? Com certeza a Bolsa despencou.” Invade o escritório repleto de outras perguntas: “Como vou pagar o aluguel? Será que me cobrarão os juros? Minha conta está coberta? Fizeram o depósito de ontem? Liberaram o cheque?” Nenhuma resposta, nenhuma informação, apenas questões não resolvidas. Descobre que seu trabalho não tem sentido algum fora da virtualidade. Talvez amanhã, quem sabe amanhã.

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