1 – NADA SE PARECE COMO ANTES

Ainda sonolento, perambula pelos corredores sombrios de seu apartamento. Oprimido pela parede; abre o chuveiro esperando a água cair por seus cabelos. Um tremelique invade sua espinha subindo até o seu pulmão: está fria. Tinha certeza de que havia ligado a torneira quente. Talvez sua sonolência lhe houvesse pregado uma peça. Não estava mais sonolento, e estava certo de que abrira a válvula correta. Caminha até o interruptor para se certificar, mas não corresponde às suas expectativas. Devem ter cortado a luz. Ainda não faziam três meses de atraso na conta, como poderiam ter cortado assim? Devem estar fazendo alguma obra nas fiações externas, porém, tampouco fora informado a respeito. Injuriado, procura o mundo do lado de fora.

Entra no carro sem saber se está desgostoso por não ter energia em casa, ou se tem que inevitavelmente ir ao trabalho. A junção faz com que o desgosto se transforme em nervoso, percebendo que seu automóvel está com pouco combustível. Contendo-se, estaciona próxima a bomba do posto de gasolina à espera de um frentista. Um ser desesperado aproxima-se de sua janela a explicar-se: “- Me desculpe Senhor, mas estamos sem energia. Nossas bombas são automáticas e não estão funcionando.” Seu apoio de contenção já não possui a mesma força. E se enfraquece a cada posto em que a história vai se repetindo. Quando sua locomoção perde todo o combustível, deixando-o parado no meio da avenida, uma combustão eclode por dentro exprimindo uma única pergunta:

“- QUE MERDA É ESTA?”

A explosão faz com que perceba que não é o único que está tendo um mau dia. Parece que o mundo inteiro está numa ressaca terrível. O número de carros que empacam na avenida aumenta gradativamente. De cada carcaça de metal, desembarca um ser completamente alterado, procurando entender se a sua raiva é melhor que a perplexidade do outro. Aos poucos as bolhas individuais vão se desfazendo, e a troca de informação vai acontecendo. O ponto em comum a todos é que ninguém sabe de nada. O jornal não havia sido entregue esta manhã, não houve transmissão televisiva, a internet não foi acessada e o celular não foi acionado. Não havia comunicação com o mundo exterior, nem com familiares, chefes ou amantes. Ninguém sabia onde qualquer pessoa poderia estar, nem o que estava acontecendo. A única coisa que sabiam era que naquela manhã de sexta-feira, dia 13 de abril de 2012, nada se parecia com o que tinham vivido.

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